Não há Desenvolvimento Sustentável com Pobreza*

José Lemos

Nesta semana encerrou-se no Brasil a Conferencia das Nações Unidas, Rio+20, com um documento que ficou aquém das ambições do que se deseja para a conquista do desenvolvimento sustentável para todos os povos, estejam onde estiverem, tendo a raça e o sexo que tiverem. Discutiu-se muito sobre mudanças climáticas, sem duvida, um tema interessante, mas esqueceu-se de algo fundamental: os excluídos da America Latina, da África, da Ásia e mesmo dos Países ricos.

Uma das causas das frustrações do Documento Final da reunião do Rio de Janeiro está exatamente no fato de não ficar explicito como se resolverá os problemas de redução da pobreza, que deixa milhões de terráqueos socialmente excluídos, e algo como um sétimo da população do planeta sem acesso à comida, num mundo que produz alimentos em quantidades suficientes para todos. O não acesso à uma função vital se dá por causa da pobreza de um contingente populacional que não tem renda para comprar alimentos cujos preços são manipulados para que alguns, que nunca puseram os pés numa roça de mandioca, enriqueçam a olhos vistos.

Fica claro que o crescimento da riqueza dos países é condição necessária, mas não suficiente para reduzir pobreza. A China, de quem se fala maravilhas, pelo crescimento excepcional da sua riqueza nos últimos anos, é um belo exemplo desta assertiva. O seu PIB global, que a transformou na segunda economia mais rica do mundo, ainda não evitou que aproximadamente trinta por cento (30%) da sua população seja excluída, em pelo menos um, ou em todos os itens a seguir discriminados: percentagem de analfabetos; renda suficiente para assegurar pagamentos de despesas mínimas familiares, inclusive comida; acesso à água encanada; acesso a local minimamente adequado para destinar dejetos humanos; acesso ao serviço de coleta sistemática de lixo. Considerando uma população de aproximadamente 1,6 bilhões de habitantes, depreende-se que em torno de 480 milhões de chineses (algo como dois “Brasis” e meio) estão naquela condição de estarem privados de ao menos um, senão de todos, aqueles itens essênciais a uma vida com um mínimo de dignidade.

Isto sem falar nos níveis de poluição ambiental que são liberados para produzir aquele volume de riqueza. Então, não se pode festejar muito os avanços quantitativos do PIB chinês, embora reconheça-se que a situação poderia ser pior se tal fato não houvesse acontecido. O que precisa é espraiar a geração de riqueza para incorporar a maioria da população chinesa. Isto não vem acontecendo na velocidade necessária.

Os pobres, tanto das áreas urbanas como das áreas rurais, tem um potencial involuntário de degradação dos recursos naturais, pela necessidade de sobrevivência, como se depreende desta passagem sacada da Segunda Edição do Meu livro:

“Que significado pode ter a idéia de ecossistema, de estabilidade biológica ou de contaminação ambiental para as imensas massas analfabetas do mundo subdesenvolvido, cuja luta cotidiana e desigual é por sua própria sobrevivência em condições precárias e absolutamente hostis? A rigor, sem uma prévia solução dos graves problemas sócio-econômicos, que assegure uma perspectiva de vida razoavelmente digna para as populações carentes do Terceiro Mundo, pouco ou nada pode ser feito para evitar que elas também contribuam para a degradação dos recursos naturais. É utópico, e politicamente equivocado, supor, ou esperar, a formação de uma consciência ecológica sob os escombros da miséria que prevalece no Terceiro Mundo”

Assim, para fustigar o desenvolvimento sustentável, o primeiro passo é eliminar a pobreza e promover a inclusão social de milhões de seres humanos que sobrevivem em condições muito aquém daquelas que todos desejamos.

O Brasil poderia fazer a lição de casa. A Presidente, no seu discurso no evento, falou no acesso à água encanada, saneamento e educação, como passos decisivos para atingir o desenvolvimento sustentável. Diagnóstico perfeito. Por isso mesmo poderíamos começar por este País varonil. Temos uma taxa de analfabetos de dez por cento (10%). A nossa escolaridade média está abaixo de oito anos. Mais da metade da nossa população tem escolaridade abaixo desta média. Estima-se em 43 milhões, o total de brasileiros que são excluídos de pelo menos um dos serviços essenciais (educação, água encanada, saneamento e coleta de lixo) além da renda.

Talvez por conhecerem parte dessas estatísticas brasileiras os Chefes de Estado e de Governo que estiveram no evento, ficaram desconfiados com a pressa que as autoridades brasileiras tiveram em aprovar um documento sem qualquer ambição de mudanças significativas para fustigar o desenvolvimento sustentável. Leia-se, reduzir a pobreza com ações estruturantes que vão muito alem da mera transferência de renda.

==========

*Trabalho publicado em 22-06-2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *