Retrocesso e ‘terrorismo’

untitledROBSON PAZ

Aos poucos, a desconfiança da população com a “Ponte para o futuro” apresentada pelo PMDB, documento que norteia a condução do país pós-afastamento da presidenta Dilma Rousseff, vai agudizando.

Sob o governo interino registram-se retrocessos em áreas essenciais como a educação. Nenhum país será capaz de ter competitividade e desenvolvimento sem investir na educação. Mas, no Brasil parece que a lógica é sempre inversa. O governo provisório trabalha para aprovar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 241 para limitar investimentos em áreas vitais: saúde e educação.

Outras medidas, como o fim do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec); o Ciência sem Fronteiras; a proposta de retirar do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a redação; corte de 90 mil bolsas do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES); ameaça de alterar o modelo de partilha do pré-sal reduzindo os recursos do Fundo Social, que estabelece 75% para educação, revelam certo desapreço do governo provisório com a área.

Contudo, o que caiu como uma bomba, na semana passada, foi a defesa do fim do ensino superior gratuito em editorial do jornal O Globo. A razão? O ensino superior seria injusto. Inacreditável! Na prática, o que se pretende com isto é tornar palatável à sociedade a privatização das universidades públicas e como contrapartida propõe-se a concessão bolsas para alunos de baixo poder aquisitivo. Um acinte!

Quantos milhões de brasileiros ascenderam socialmente a partir do ingresso no ensino superior? Para além das frias estatísticas publicadas em parte da grande mídia, há seres humanos que jamais deixariam tais indicadores sociais sem a oportunidade de cursar faculdade gratuita.

Dizer que a maior parte das vagas na universidade pública pertence a alunos de alta renda parece sofisma para justificar a privatização do ensino público. Mais ainda quando se sabe o salto dado nas universidades públicas com advento das cotas sociais e étnicas.

O discurso de que os pobres estão nas universidades pagas é ainda mais falacioso. Até mesmo por serem pobres, por óbvio, têm maiores dificuldades para pagar mensalidades altas. Ademais, a tese é contraditória considerando que o atual governo cortou milhares de bolsas do FIES e não vê com simpatia programas que beneficiam alunos pobres, como o Prouni.

O editorial não traz à luz argumentos plausíveis que justifiquem medida tão extremada. Menos ainda sob angulação científica. Apenas exercita contorcionismo da redução de despesas diante da crise econômica. Recursos aplicados na educação deveriam ser contabilizados como investimentos não despesas.

Infelizmente, o país que viu com estardalhaço notícias sobre prisões de supostos terroristas não debateu com profundidade necessária o terror que se tenta impor sobre a educação pública do nosso país. É preciso pensar o Brasil para além dos interesses financeiros dos abastados. Chega de retrocessos!

Radialista, jornalista. Subsecretário de Comunicação Social e Assuntos Políticos

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