O DIA EM QUE OS MARCIANOS INVADIRAM SÃO LUÍS PELAS ONDAS DO RÁDIO

Do Blog do Ed Wilson

O livro "Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos", coordenado pelo professor Francisco Gonçalves da Conceição, lançado na quarta-feira (26).

O livro “Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos”, coordenado pelo professor Francisco Gonçalves da Conceição, será lançado nesta quarta-feira (26), às 19 horas, no Memorial Cristo Rei (praça Gonçalves Dias).

A obra recupera os traços memoráveis da cena histórica e estética de um dos mais importantes eventos de mídia já veiculados no Maranhão, na rádio Difusora, em 1971.

Inspirados no clássico programa “Guerra dos Mundos”, de Orson Welles, veiculado em 1938, nos Estados Unidos, um grupo de talentosos profissionais do rádio maranhense fez descer no Campo de Perizes a nave dos marcianos.

Confira na entrevista com Francisco Gonçalves os detalhes da pesquisa que resultou no livro. Na foto, a equipe de pesquisadores.

Quando iniciou a pesquisa e quantas pessoas participaram do levantamento?

Francisco Gonçalves – A pesquisa tinha como objetivo reunir depoimento dos produtores do programa, reconstituir o roteiro e localizar possíveis registros sonoros. Entre 2005 e 2006, a equipe de pesquisa entrevistou José de Jesus Brito (Sérgio Brito), Manoel José Pereira dos santos (Pereirinha), José de Ribamar Elvas Ribeiro (Parafuso), José Faustinho dos Santos Alves (J. Alves) e José Marinho Raiol Filho (Rayol Filho). Na época, embora tivéssemos tentando, não conseguimos localizar Fernando Melo e Fernando Costa. José Branco não aceitou conceder entrevista sobre o assunto. Além disso, reconstituímos o roteiro a partir de uma gravação do programa cedida por Parafuso. Dessas atividades de pesquisa, participaram, além de mim, Aline Cristina Ribeiro Alves, Andréia de Lima Silva, Elen Barbosa Mateus, Kamila de Mesquita Campos, Karla Maria Silva de Miranda, Mariela Costa Carvalho, Romulo Fernando Lemos Gomes e Sarita Bastos Costa, todos (na época) alunos do Curso de Comunicação Social da UFMA.

Como foi organizado o trabalho? Em quais áreas a pesquisa incidiu?

Francisco Gonçalves – Focamos em duas áreas: a versão dos produtores e interpretes e a reconstituição do roteiro do programa, já que tratava-se de organizar fontes de pesquisa sobre o programa veiculado pela Rádio Difusora em 1971 e, deste momento, inserir esse acontecimento nos estudos de comunicação no Brasil e no exterior. Embora a Guerra dos Mundos seja um tema recorrente nos estudos de rádio e jornalismo, apenas recentemente o episódio de São Luís começou a ser objeto de discussão nos fóruns científicos do país. Por exemplo, apenas em 2003 foi apresentado um artigo científico sobre o tema, no caso, trabalho do Prof. Ed Wilson no 1º Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, intitulado A Guerra dos Mundos em São Luís do Maranhão. Esse foi o primeiro artigo científico apresentado sobre o tema em um fórum de discussão da área de comunicação.

Entre os profissionais que participaram da produção, quais foram entrevistados e que funções cada um exerceu na montagem?

Francisco Gonçalves – Todos os entrevistados participaram da produção do programa e/ou interpretação dos personagens, embora existam divergências sobre o papel desempenhado por cada um e o personagem que cada um chegou a interpretar. Sérgio Brito, Pereirinha e Parafuso, junto com Fernando Melo, participaram da produção do programa. Especificamente, Sérgio Brito, no roteiro; Pereirinha, nos efeitos especiais, na direção técnica; e Parafuso, na sonoplastia. Sérgio Brito interpretou o locutor da Rádio Repórter do Rio Janeiro (uma emissora fictícia), Pereirinha o controlador de vôo. Sobre o piloto de avião seguido por objeto desconhecido, o relato de Pereirinha diverge do de Sérgio Brito. Sérgio Brito afirma que interpretou esse personagem e Pereirinha atribui a interpretação a Fernando Melo. Sobre os demais entrevistados, J. Alves e Rayol Filho interpretaram a si mesmos. Outros personagens aparecem na história, como dono da Fazenda Santa Marta, interpretado de acordo com Pereirinha por Fernando Melo; o professor Leonardo Galvão e o cientista Mário Corteline, ambos interpretados por Reynaldo Faray. Não obstante as divergências sobre o papel de cada um, o programa A Guerra dos Mundos, como todo produto de mídia, é uma obra coletiva, resultado do esforço de todos.

Quais os cenários de São Luís no início da década de 1970?
Francisco Gonçalves – Na passagem dos anos 60 para os anos 70, São Luís estava passando por mudanças políticas, urbanísticas, demográficas e midiáticas. De 1960 a 1970, de acordo com o IBGE, a cidade cresceu em mais de cem mil habitantes, passando para 265.486 moradores. Novas vias de acesso foram abertas, com as pontes sobre o Rio Anil, no Caratatiua e São Francisco. No começo da década de 70, a população maranhense ainda vivia o impacto da derrota de Renato Archer (PTB-PSD e vitória de José Sarney (PSP-UDN-PR). No campo das mídias, a televisão ganhava envergadura, por conta das mudanças técnicas, a expansão do consumo de produtos televisuais e aumento do número de telespectadores. Naquela década, a televisão deslocaria, na capital, o lugar social, econômico e político do rádio. Foi exatamente nos anos 70 que o Brasil veio a se constituir em uma sociedade midiática, sobretudo por conta do papel que a televisão viria a ocupar no sistema de comunicação, a partir da organização das redes nacionais. Mas, São Luís também era uma cidade povoada de assombrações, como a Carruagem de Ana Jansen, a serpente do Ribeirão e o Touro Encantado da Ilha dos Lençóis.

Em que aspectos o programa de São Luís mais se aproxima do original de Orson Welles?

Francisco Gonçalves – De acordo com Sérgio Brito, o roteiro do programa da Difusora levou em consideração do livro de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos, e uma sinopse do programa de Orson Welles, veiculado em 1938 pela CBS nos EUA, publicado em uma edição da revista Ele&Ela. Os dois roteiros possuem estrutura narrativa semelhante. Ambos utilizam os recursos do radiojornalismo para contar a famosa história de H.G. Wells. Mais também existem algumas diferenças importantes. Nos Estados Unidos, o programa foi veiculado em uma noite de domingo, em um horário destinado ao radioteatro. Em São Luís, o programa foi veiculado em uma manhã de sábado, ao longo da programação normal da emissora, sem nenhum aviso prévio que se tratava de obra de ficção. Nos Estados Unidos o programa foi interpretado por atores; em São Luís por respeitados e reconhecidos profissionais de rádio e jornalismo. Nos Estados Unidos o foco da invasão foi o território americano; em São Luís, a invasão se espalha pelo mundo e chega ao campo de Perizes, sendo este um momento chave na dramática narrativa da Difusora, para o qual foram fundamentais a música e os efeitos de som.

O que os produtores do programa pretendiam com a veiculação?

Francisco Gonçalves – Sobre os objetivos dos produtores também existem visões diferentes. Para Sérgio Brito, por exemplo, o objetivo era demonstrar o valor do rádio em um momento que o panorama de comunicação passava por mudanças com o crescimento da audiência de televisão. Para Pereirinha, era uma brincadeira, feita para comemorar o aniversário da emissora. Eu diria que, de certo modo, os dois têm razão. Foi uma brincadeira no aniversário da emissora, mas uma brincadeira que se prestava a expor a importância do rádio, em um momento em que a televisão, institucionalmente falando, provocava uma reestruturação do papel social, econômico, político e cultural do rádio.

No começo da década de 70 como estavam posicionados o rádio e a televisão no cenário midiático de São Luís?

Francisco Gonçalves – No começo da década de 70, cinco emissoras de rádio disputavam a atenção dos ouvintes na capital do Estado, no caso, Difusora, Timbira, Gurupi (hoje, Rádio São Luís), Educadora e Ribamar (hoje, Rádio Capital). Com a chegada do vídeo-tape em 1966, a televisão superou a sua primeira fase, caracterizada por uma produção local, feita, sobretudo, por profissionais oriundos do rádio e teatro. Essa produção local foi gradativamente substituída por uma programação do sul país. Como observa Aldo Leite, em seu livro sobre o teatro, a criatividade e a improvisação cederam lugar à tecnologia.

Quais os aspectos relevantes na estética do programa que levaram à construção de um efeito de realidade?

Francisco Gonçalves – Eu diria que o realismo foi fundamental para conferir valor de verdade à narrativa – o programa foi apresentado e interpretado por cronistas, locutores e repórteres respeitados e reconhecidos pelo público; a história de H. G. Wells foi recontextualizada, ou seja, São Luís passou a ser um dos palcos da fictícia invasão; o uso da vinheta de notícias extraordinárias da Rádio Difusora marcou o ritmo do programa; e a trilha sonora, que articulou as músicas mais pedidas da semana, com música clássica (utilizada quando morria alguém importante) e músicas da trilha sonora da novela O homem que deve morrer e do filme 2001: uma odisséia no espaço.

Houve pânico em São Luís durante a veiculação do programa?

Francisco Gonçalves – Os depoimentos dos produtores e interpretes do programa revelam um aspecto bastante interessante do programa: as pessoas acreditaram mesmo que a Terra estava sendo invadida por naves extraterrestres e que os marcianos estavam chegando em São Luís. Muitos ouvintes interpretaram essa invasão como o próprio anúncio do fim do mundo. Tendo chegado o fim do mundo, a preocupação das pessoas era ir para casa morrer com os seus. Nos últimos dias, temos ouvido muitos relatos que confirmam essa versão. Ao divulgar o lançamento do livro, várias pessoas nos procuram com histórias semelhantes àquelas narradas por Sérgio Brito, Pereirinha, Parafuso, J. Alves e Rayol Filho.

Como foi a repressão à Rádio Difusora após a exibição do programa?

Francisco Gonçalves – Tropa do exército invadiu e ocupou as dependências da emissora. E em um ato completamente arbitrário, o comandante determinou o fechamento da emissora e da televisão, que deveria entrar no ar a partir das 17h. Nos anos seguintes, a Difusora responderia processo no DENTEL. A situação só não foi pior porque Sérgio Brito, Pereirinha e Parafuso introduziram em dois espaços da gravação uma pequena nota dizendo que se tratava de programa de ficção.

Qual a descoberta mais relevante da pesquisa?

Francisco Gonçalves – O aspecto mais relevante da pesquisa é que, pela primeira vez, se conseguiu reunir importantes fontes de pesquisa sobre esse programa, agora publicadas em livro. Ou seja, reunimos os depoimentos dos produtores e interpretes do programa, reconstituímos o roteiro e localizamos cópia da gravação com Parafuso e Pereirinha. O livro Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos apresenta esses depoimentos e o roteiro e o áudio do programa. Cada participante do programa apresenta a sua própria versão daquele acontecimento. As convergências e divergências nas narrativas fazem parte da própria dinâmica metodológica adotada na pesquisa, no caso a história oral. Nós estamos convencidos que ao lançar o livro outras histórias e outras lembranças virão a público, do mesmo modo, que as diferentes versões provocarão bons debates sobre o papel dos produtores e interpretes e sobre o próprio programa. Deste modo, teremos condições de ampliar as informações sobre esse importante evento.


Programa de rádio que causou pânico no Maranhão faz 40 anos

Versão de ‘A guerra dos mundos’ fechou comércio e levou Exército às ruas.
Livro reconstitui episódio que marcou a história. Confira trechos.

Alec Duarte Do G1, em São Paulo

Primeira página do jornal "O Imparcial" de 31/10/71 relata o impacto do programa da rádio Difusora

Uma adaptação radiofônica da obra de ficção científica “A guerra dos mundos” (publicada em 1898 por H. G. Wells) pôs o Exército em alerta, fechou boa parte do comércio e provocou pânico generalizado entre a população.

Não se trata da célebre encenação levada ao ar em 1938 por Orson Welles nos EUA, mas de uma versão que, em 1971, comemorou o aniversário da rádio Difusora, de São Luís (Maranhão), transformando a rotina da cidade –  como ocorrera 33 anos antes durante a emissão americana.

“O programa foi interpretado pelos ouvintes não como uma invasão alienígena, conforme seu roteiro, mas como se fosse o próprio fim do mundo”, explica o professor Francisco Gonçalves da Conceição, organizador do livro “Outubro de 71 – Memórias fantásticas da guerra dos mundos”, que reconstitui a histórica transmissão.

Fruto de três anos de trabalho de uma turma de graduação em Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Federal do Maranhão, a obra será lançada hoje à noite, em São Luís, com a presença de alguns dos protagonistas que transformaram o então pacato sábado 30 de outubro de 1971 naquele que, para muitos de seus ouvintes, seria seu último dia sobre a Terra. Clique aqui e continue lendo.